Pela primeira vez, um transplante simultâneo de fígado inteiro e dois rins de porco geneticamente modificados foi realizado em um ser humano. O procedimento experimental, conduzido por pesquisadores chineses e publicado na revista científica Cell, teve como objetivo avaliar a viabilidade do funcionamento conjunto desses órgãos no organismo humano. As informações foram divulgadas pelo portal Olhar Digital.
A intervenção foi realizada em um receptor falecido, com autorização da família, e integrou estudos na área de xenotransplantes, que investiga o uso de órgãos animais como alternativa à falta de doadores humanos. Durante cinco dias, a equipe médica monitorou o desempenho dos órgãos implantados.
Os resultados indicaram que tanto o fígado quanto os rins apresentaram funções compatíveis com as necessidades do corpo humano, reforçando o potencial da técnica para ampliar, no futuro, as opções de transplante.
Avanço científico
O estudo foi desenvolvido em um cenário de busca por soluções para a escassez global de órgãos. Segundo os autores, milhares de pacientes permanecem em listas de espera e nem todos conseguem receber um transplante a tempo. Nos últimos anos, pesquisadores têm investido em estratégias como o aprimoramento da preservação de órgãos, o desenvolvimento de alternativas artificiais e o avanço dos xenotransplantes.
No experimento, o fígado original do receptor foi removido para ser destinado a outro paciente. Em seguida, os cientistas implantaram no corpo um fígado e dois rins de porco com seis modificações genéticas, projetadas para reduzir o risco de rejeição e aumentar a compatibilidade com o organismo humano.
A complexidade do procedimento também chama atenção. Até então, testes com xenotransplantes em humanos haviam envolvido apenas um órgão por vez, sem registros de combinações como a realizada neste estudo.
Durante o acompanhamento, os órgãos apresentaram desempenho mais próximo ao observado em humanos do que em porcos, indicando compatibilidade fisiológica relevante. Ainda assim, os pesquisadores identificaram sinais iniciais de resposta imunológica cerca de 36 horas após a cirurgia, dado que pode orientar futuras abordagens para minimizar a rejeição.
Os próprios autores destacam limitações importantes, como o fato de o experimento ter sido realizado em apenas um indivíduo e com acompanhamento restrito a cinco dias. Apesar disso, avaliam que os resultados oferecem base inicial para pesquisas mais amplas sobre transplantes combinados.
Dados citados no estudo indicam ainda que mais de 64% dos participantes de uma pesquisa realizada em 2024 afirmaram que aceitariam receber um órgão de porco, caso necessário.
Embora a aplicação clínica em larga escala ainda seja considerada distante, o avanço reforça a possibilidade de que os xenotransplantes venham a integrar, no futuro, o conjunto de soluções para reduzir a escassez de órgãos no mundo.
Fonte: Olhar Digital