O
Brasil construiu uma das mais sofisticadas, eficientes e seguras cadeias de
produção de proteína animal do planeta. Dispõe de escala, tecnologia, sanidade,
disponibilidade de matérias-primas, capacidade empresarial e acesso a
praticamente todos os grandes mercados consumidores. Essa posição, entretanto,
não constitui patrimônio irrevogável. Competitividade não se herda nem se
preserva por decreto: conquista-se todos os dias. E o País começa a cobrar da
própria produção uma conta demasiadamente elevada.
O
paradoxo é evidente. Somos competitivos dentro das granjas e das indústrias,
mas perdemos eficiência entre a porteira, a fábrica, a estrada, o porto e o
sistema financeiro. Aquilo que o produtor e a agroindústria conquistam com
genética, manejo, tecnologia e escala é parcialmente consumido por impostos,
juros, infraestrutura deficiente, burocracia, insegurança jurídica e custos
logísticos.
A
tributação é uma das faces mais perversas dessa equação. As cadeias de aves e
suínos são extensas e complexas: começam na genética, passam pelos grãos, pela
fabricação de rações, pela produção animal e pelo processamento industrial até
chegar ao consumidor. Essa integração permite rastreabilidade, controle
sanitário e segurança dos alimentos. Entretanto, a sucessão de etapas também
amplia a exposição ao sistema tributário.
A
reforma tributária traz a perspectiva de simplificação, mas a transição exige
atenção. O Brasil já iniciou em 2026 o período de teste da CBS e do IBS e
avançará para novas etapas a partir de 2027. O desafio será impedir que
exceções, regimes específicos e regulamentações sucessivas reconstruam, sob
novos nomes, a complexidade que se pretende eliminar.
Há
uma distorção conceitual que precisa ser enfrentada: agregar valor não pode
significar simplesmente agregar impostos. Um país que pretende industrializar
sua produção, gerar empregos qualificados e exportar produtos de maior valor
precisa premiar a transformação, não penalizá-la. Caso contrário, torna-se
racional exportar matéria-prima enquanto outros países capturam a renda da
industrialização.
A
questão trabalhista também merece racionalidade econômica. A reoneração gradual
da folha já alcança setores antes beneficiados, o que acrescenta pressão a
atividades intensivas em trabalho. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam
dificuldades concretas para preencher seus quadros. Qualquer alteração
adicional nas jornadas e escalas precisa considerar produtividade,
disponibilidade de trabalhadores e custo final. Não existe mecanismo econômico
capaz de transformar aumento permanente de custo em benefício gratuito. Em
algum ponto da cadeia, a conta aparecerá — na margem das empresas, no
investimento, no emprego ou no preço dos alimentos.
Talvez
nenhum gargalo revele tão claramente nossas contradições quanto a logística.
Grande parte da produção brasileira de suínos e aves está concentrada no Sul,
justamente onde a indústria convive com déficit estrutural de milho. Essa
insuficiência chega a cerca de 7 milhões de toneladas apenas de milho mesmo em
anos favoráveis e produz um custo logístico superior a R$ 10 bilhões.
Transportamos
por rodovias grandes volumes que poderiam percorrer longas distâncias por
ferrovias. Depois, enfrentamos estradas congestionadas, infraestrutura
portuária limitada e custos para colocar nossos produtos no mercado
internacional. É uma extraordinária demonstração de eficiência produtiva
submetida a uma infraestrutura incapaz de acompanhá-la.
Enquanto
soluções estruturantes não avançam, alternativas imediatas precisam ser
exploradas. O Sul possui áreas disponíveis no inverno que podem produzir trigo,
triticale e outros cereais destinados à alimentação animal. É necessário
ampliar o seguro rural para dar previsibilidade ao produtor e facilitar o
ingresso de grãos de países vizinhos, especialmente Argentina e Paraguai. Não
substituem ferrovias e infraestrutura moderna, mas reduzem a vulnerabilidade de
uma cadeia que não pode esperar décadas.
O
crédito constitui outro freio severo. Investimentos em granjas, plantas
industriais, automação, eficiência energética, biosseguridade e
sustentabilidade exigem capital de longo prazo. Quando o dinheiro se torna
excessivamente caro, projetos economicamente necessários deixam de ser
financeiramente possíveis. O resultado é perverso: posterga-se a modernização,
perde-se produtividade e aumenta-se a distância dos concorrentes
internacionais.
Não
se trata de defender subsídios permanentes. O Brasil precisa criar condições
para que o capital privado financie sua expansão produtiva. Isso requer
equilíbrio fiscal, segurança jurídica, menos burocracia e juros compatíveis com
investimentos cuja maturação se mede em décadas, não em meses.
Há
ainda um ativo que precede todos os demais: a sanidade animal. Sem ela não há
mercado externo, eficiência fabril ou vantagem cambial que salve uma cadeia
exportadora. Influenza aviária, peste suína e enfermidades associadas à
população de animais asselvajados exigem vigilância permanente. Sanidade não é
despesa acessória. É infraestrutura econômica.
A
próxima fronteira será digital. Inteligência artificial, ciência de dados,
automação e capacidade preditiva redefinirão a produtividade da agroindústria.
Mas não existe transformação digital competitiva sem conectividade rural,
tecnologia acessível e desenvolvimento nacional de soluções. Permanecer
dependente de equipamentos, sistemas e conhecimento importados significa
acrescentar outra camada de custo à produção.
O
Brasil possui vantagens comparativas extraordinárias. O erro está em imaginar
que elas bastam. Países concorrem por empresas, capitais, mercados e talentos.
Investimentos migram para onde há previsibilidade, infraestrutura e ambiente
econômico racional.
A
agroindústria brasileira não pede proteção contra a concorrência. Pede
condições para enfrentá-la. Produzir dentro da fábrica e da granja com
eficiência mundial enquanto se convive, do lado de fora, com custos
incompatíveis com essa eficiência é desperdiçar uma vantagem construída durante
décadas.
O
País precisa decidir se deseja apenas ser grande produtor de commodities ou
também uma potência industrial de alimentos. A diferença entre uma coisa e
outra está menos na capacidade de quem produz do que na capacidade do Brasil de
deixar de punir quem investe, transforma, emprega e exporta.
A
tese sobre competitividade segue diretamente a advertência do material-base: a
vantagem comparativa brasileira precisa ser convertida em vantagem competitiva,
sob risco de o País perder espaço por deficiências criadas internamente.