Uma pesquisa liderada pelo Instituto Pirbright, do Reino Unido, identificou mutações específicas na proteína hemaglutinina (HA) dos vírus da gripe aviária H5 que alteram de forma significativa a eficácia das vacinas para aves, oferecendo informações que podem aperfeiçoar o desenvolvimento vacinal e as estratégias de controle de doenças em escala global. Desde o aparecimento, em 1996, do vírus da linhagem A/Goose/Guangdong/1/1996 (Gs/GD), a influenza aviária H5 evoluiu para mais de 30 clados geneticamente e antigenicamente distintos. O clado 2.3.4.4b tornou-se um dos mais disseminados e preocupantes, responsável por surtos recentes que atingiram aves domésticas, aves selvagens e um número crescente de mamíferos.
Apesar da vacinação permanecer como peça-chave no controle da influenza aviária em aves e na redução do risco zoonótico para humanos, a rápida evolução viral frequentemente gera incompatibilidades entre cepas vacinais e vírus circulantes, o que pode enfraquecer a proteção e permitir que o vírus escape da resposta imune. Para mapear as relações imunológicas entre cepas, pesquisadores do Pirbright empregaram genética reversa para gerar vírus recombinantes representativos de múltiplos clados de H5 e analisaram as relações antigênicas por meio de ensaios de inibição da hemaglutinação (HI) e cartografia antigênica, métodos que possibilitam visualizar a relação imunológica entre diferentes cepas.
Publicados no Journal of Virology, os resultados indicam que os vírus do clado 2.3.4.4 se distinguem claramente de outras linhagens H5 e exibem grande diversidade mesmo dentro do próprio clado. Ao combinar dados antigênicos e comparações genéticas, a equipe identificou 48 posições de aminoácidos candidatas na HA capazes de influenciar a variação antigênica. O autor principal, professor Munir Iqbal, chefe do grupo de Influenza Aviária e Doença de Newcastle do Instituto Pirbright, afirmou que a análise traz implicações práticas para aprimorar a seleção de cepas-semente e desenvolver vacinas mais abrangentes e duradouras, reduzindo o impacto econômico dos surtos e o risco de transmissão a humanos e outros mamíferos.
Para validar as previsões, os cientistas introduziram mutações individuais em uma HA candidata por mutagênese sítio-dirigida. Testes antigênicos posteriores mostraram que quatro mutações (R82K, A83T, T204I e F229Y) provocaram alterações significativas na antigenicidade, sendo R82K, T204I e F229Y determinantes antigênicos recém-identificados. Várias dessas mutações já apareceram esporadicamente em surtos recentes, incluindo a epizootia bovina H5N1 na América do Norte, o que sugere papel potencial dessas mudanças na evolução viral futura e na eficácia vacinal.
O estudo também demonstra que os vírus do clado 2.3.4.4 não apenas diferem geneticamente, mas também separam-se antigenicamente de outros clados H5, exibindo variações expressivas mesmo entre subclados próximos — fator que complica a escolha de cepas vacinais e ressalta a necessidade de maior precisão na correspondência antigênica. Além disso, os pesquisadores identificaram variações em potenciais sítios de glicosilação na HA; modificações nessas posições podem proteger epítopos virais do reconhecimento por anticorpos e favorecer a evasão imunológica.
Ao integrar análise filogenética, cartografia antigênica, modelagem estrutural e validação experimental, o estudo oferece uma estrutura para identificar determinantes moleculares que impulsionam a deriva antigênica em vírus da influenza aviária. Os autores afirmam que a abordagem pode também auxiliar o monitoramento de variantes emergentes e a previsão de quais mutações têm maior probabilidade de comprometer o desempenho vacinal.
Fonte: Poultry World