A suinocultura catarinense atravessa uma crise marcada pelo
excesso de oferta e pela queda na remuneração. A avaliação é de Losivanio Luiz
de Lorenzi, presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS),
em entrevista exclusiva à Feed&Food durante o 18º Simpósio Brasil Sul de
Suinocultura (SBSS), realizado de 11 a 13 de agosto, em Chapecó (SC). Para o
dirigente, o momento exige planejamento coletivo e atenção ao produtor
independente, elo mais exposto às oscilações do mercado. “É uma crise realmente
de preço, não é ainda uma crise de custo, porque os custos deste ano e do ano
passado meio que se estabilizaram. A verdade é que conseguimos ser tão
eficientes que produzimos demais e agora estamos pagando a nossa conta”,
afirmou.
Eficiência amplia a oferta
Na avaliação de Losivanio, a expansão do plantel e o aumento
do peso de abate colocaram no mercado mais carne do que o consumo doméstico e
as exportações conseguiram absorver.
“Nós aumentamos 105 mil matrizes no total no Brasil, e Santa
Catarina teve uma parcela de crescimento nisso nos últimos anos. Isso está
levando mais carne para o mercado”, declarou.
Ele também relatou semanas em que o peso médio de abate
chegou a 160 quilos, diante de uma referência habitual próxima de 125 quilos.
O cenário mencionado pelo dirigente também aparece em
análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). O órgão
aponta que o plantel brasileiro de matrizes está em trajetória de crescimento
há aproximadamente quatro anos, sem avanço equivalente da demanda interna.
Em junho, o suíno vivo negociado na região SP-5 atingiu
média de R$ 5,25 por quilo, recuo real de 41,2% em relação ao mesmo mês de 2025
e o menor patamar real em quase 20 anos. Foi o sexto mês consecutivo de queda,
conforme o Cepea.
Na avaliação do presidente da ACCS, a expansão também
aumentou a exposição financeira das propriedades. “Eu sempre digo que a maior
qualidade do nosso produtor também é o maior defeito”, resumiu. Para Losivanio,
a disposição de crescer e investir se transforma em fragilidade quando não há
reserva financeira.
“Num momento desse, pela alta produção, o defeito é que ele
não guardou uma reserva para poder continuar nesse tempo de dificuldade mais
tranquilo”, disse.
Endividamento entra no debate sobre consumo
Losivanio também relacionou a dificuldade de ampliação do
consumo ao nível de endividamento das famílias brasileiras. Em julho, 82% das
famílias possuíam algum tipo de dívida, maior percentual da série histórica. Em
média, 29,5% da renda mensal estava comprometida, segundo a Pesquisa de
Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do
Comércio de Bens, Serviços e Turismo.
Para o dirigente, nem mesmo a maior competitividade da carne
suína diante da bovina tem sido suficiente para elevar o consumo no ritmo
necessário. Em março, a diferença entre as carcaças bovina e suína chegou a R$
14,26 por quilo, a maior em quatro anos, segundo o Cepea.
“Mesmo com uma diferença muito forte e histórica entre os
preços das duas carnes, não estamos conseguindo emplacar um volume maior de
consumo da carne suína”, observou Losivanio.
Exportações mantêm ritmo recorde
O mercado externo segue em nível recorde. Considerando
produtos in natura e processados, o Brasil exportou 794,2 mil toneladas de
carne suína entre janeiro e junho, volume 10% superior às 722 mil toneladas
registradas no mesmo período de 2025. A receita avançou 7,9%, para US$ 1,859
bilhão, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal.
“Este ano já estamos em uma crise, embora tenhamos exportado
mais de 60 mil toneladas em relação ao mesmo período do ano passado. Como vamos
conseguir abrir novos mercados? Aumentar o volume nos mercados que já estão aí
será mais complicado”, ponderou. O Cepea estima que as vendas externas
normalmente representem entre 25% e 30% da produção brasileira. Santa Catarina
ocupa posição central nesse cenário. Em 2025, o estado exportou 748,8 mil
toneladas de carne suína e faturou US$ 1,85 bilhão, respondendo por 50,9% do
volume nacional, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária.
Para Losivanio, a manutenção desse protagonismo depende da
sanidade. “O maior desafio sempre é mantermos a sanidade do rebanho, porque
esse é o nosso passaporte para continuar exportando com a pujança que o Brasil
tem”, afirmou.
Santa Catarina foi o primeiro estado brasileiro reconhecido
como livre de febre aftosa sem vacinação e também mantém a condição de livre de
peste suína clássica, conforme a Companhia Integrada de Desenvolvimento
Agrícola de Santa Catarina.
Mão de obra desafia toda a cadeia
Além da sanidade e do mercado, o presidente da ACCS colocou
a escassez de trabalhadores entre os problemas mais urgentes da atividade.
“Temos um problema muito sério desde a propriedade rural até chegar ao
consumidor, na gôndola do supermercado”, afirmou.
Segundo ele, granjas, frigoríficos e outros elos têm
ampliado a contratação de estrangeiros para preencher vagas. O diagnóstico
converge com as discussões do encerramento do SBSS, dedicado à atração,
qualificação e retenção de profissionais na suinocultura.
Planejamento precisa alcançar 2036
Para reduzir a repetição de ciclos de expansão e crise,
Losivanio defende um planejamento setorial de dez anos, envolvendo produtores,
agroindústrias, cooperativas e governo. Embora considere utópica a ideia de
controlar o crescimento da oferta, ele avalia que a discussão precisa começar.
“O que falta é ter um controle sobre esse crescimento de
produção. É algo que precisa ser conversado com todos os setores para que
tenhamos estabilidade”, afirmou.
O dirigente ressalvou que não cabe ao poder público resolver
sozinho o desequilíbrio. “A gente costuma buscar uma alternativa de resolução
da crise no governo. E o governo não faz isso; o governo nem pode fazer isso.
Falta o setor ter uma conjuntura melhor”, disse.
Na avaliação dele, a vulnerabilidade é maior entre criadores
independentes que não têm destino previamente contratado para toda a produção e
dependem da demanda eventual de grandes empresas.
“Está faltando sentarmos todos, nos olharmos na cara, nos
respeitarmos e entendermos que é preciso manter aquela produção. Apesar da
crise forte, toda hora aparece alguém dizendo que está aumentando, crescendo e
investindo. Para onde vai toda essa carga?”, questionou.
Para Losivanio, projetar uma expansão que o mercado não
absorve transfere o impacto para a base: “Quem sempre vai pagar a conta somos
nós, produtores”.
Informação para atravessar a crise
Nesse cenário, o presidente da ACCS vê no SBSS uma
ferramenta para transformar conhecimento e troca de experiências em decisões
nas propriedades.
“Em épocas de dificuldades, é para saber como vai ser o
mercado de agora em diante e quais decisões ele tem que tomar dentro da
propriedade rural”, afirmou. Segundo ele, palestras, empresas, entidades e
frigoríficos ajudam a formar uma leitura mais ampla do setor.
“Quem volta para casa vai ter que analisar tudo isso olhando
a propriedade de cima e não lá do chão, para poder otimizar cada vez mais.
Quem, em épocas boas, sabe administrar e sai preparado consegue ultrapassar a
crise sem tantos percalços.”