A indústria de etanol de milho no Brasil vive uma fase de forte expansão e vem promovendo uma transformação estrutural no mercado agrícola nacional. Em pouco mais de uma década, o setor deixou de ser uma alternativa regional para se tornar um dos principais vetores de crescimento da demanda pelo cereal, criando novas oportunidades para produtores rurais, indústria de proteína animal e cadeias ligadas à energia renovável.
Na safra 2025/2026, cerca de 22,2 milhões de toneladas de milho foram destinadas à produção de etanol no país, volume muito superior às 630 mil toneladas registradas na temporada 2016/2017, segundo dados do setor.
O crescimento acompanha a expansão das unidades produtoras. Atualmente, o Brasil conta com 29 biorrefinarias de etanol de milho em operação, além de novos projetos em diferentes fases de desenvolvimento, incluindo unidades autorizadas para construção e empreendimentos planejados.
Para especialistas, o avanço consolida o país como uma potência agroenergética, combinando produção de alimentos, geração de energia renovável e redução de emissões de carbono.
Durante anos, o mercado brasileiro de milho enfrentou um desafio estrutural: o crescimento da produção superava a capacidade de consumo interno, pressionando os preços e aumentando a dependência das exportações.
Segundo análise de especialistas do setor, a chegada das usinas de etanol de milho mudou esse cenário ao criar uma demanda doméstica mais previsível para o cereal, especialmente na segunda safra.
O pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Lucílio Alves, destaca que antes da expansão das biorrefinarias o país frequentemente registrava excedentes de produção, situação que limitava a valorização do milho.
Com o avanço do etanol, o milho passou a ter uma nova rota de consumo dentro do próprio mercado nacional, fortalecendo a liquidez regional e reduzindo a dependência exclusiva do comércio externo.
O fortalecimento da demanda ocorreu junto com uma evolução significativa da produção brasileira.
Na safra 2024/2025, a produção nacional de milho alcançou aproximadamente 141,7 milhões de toneladas, crescimento expressivo em relação ao ciclo anterior, conforme dados do IBGE.
O avanço ocorreu com aumento de produtividade e expansão moderada da área cultivada, demonstrando maior eficiência no uso da terra.
Para analistas, o crescimento das usinas de etanol de milho foi um dos principais fatores responsáveis por absorver parte desse aumento de oferta, evitando uma pressão maior sobre os preços.
Além do combustível renovável, a indústria de etanol de milho ampliou a oferta de coprodutos estratégicos para a cadeia de proteína animal.
Entre os principais estão o DDG (Dried Distillers Grains) e o WDG (Wet Distillers Grains), ingredientes obtidos após o processo de fermentação do milho e utilizados na alimentação animal.
Ricos em proteínas e fibras, esses produtos passaram a ser importantes alternativas para reduzir custos de nutrição na pecuária de corte e leiteira, além de apresentarem potencial de uso crescente na suinocultura.
A integração entre produção de grãos, biocombustíveis e proteína animal fortalece o conceito de economia circular dentro do agronegócio brasileiro.
O setor também acelera investimentos em tecnologias voltadas à redução das emissões.
A indústria trabalha com soluções como captura e armazenamento de carbono (BECCS), biogás e biometano, buscando transformar as usinas em plataformas de geração de energia limpa.
Uma das iniciativas de destaque envolve projetos de captura do carbono gerado durante a fermentação do milho, com armazenamento permanente no solo.
A tecnologia pode permitir a produção de combustíveis com balanço negativo de carbono, ampliando a competitividade do etanol brasileiro nos mercados internacionais.
A próxima fronteira do etanol de milho está além dos veículos leves.
Setores como aviação, transporte marítimo, indústria química e geração de energia começam a olhar para o biocombustível brasileiro como uma alternativa para reduzir emissões.
Entre as principais oportunidades está o Combustível Sustentável de Aviação (SAF), mercado considerado estratégico para a transição energética global.
O setor aéreo mundial busca alternativas aos combustíveis fósseis, e o etanol surge como uma matéria-prima com capacidade de escala e menor pegada de carbono.
Além da aviação, o transporte marítimo também abre oportunidades. Avaliações internacionais apontam que o etanol de milho brasileiro apresenta intensidade de carbono significativamente inferior aos combustíveis fósseis utilizados atualmente em embarcações.
A expansão das políticas de descarbonização aumenta o espaço para o etanol brasileiro no mercado internacional.
Países como Japão, Estados Unidos e Índia ampliam programas de mistura de etanol à gasolina, criando novas oportunidades comerciais para produtores e empresas brasileiras.
Esse movimento reduz a dependência do mercado interno de combustíveis e conecta o agronegócio nacional às metas globais de redução de emissões.
Apesar das perspectivas positivas, o crescimento do setor exige novos investimentos em eficiência produtiva, certificações ambientais e rastreabilidade.
Mercados internacionais, especialmente os ligados à aviação e ao transporte marítimo, exigem comprovação detalhada sobre origem, sustentabilidade e intensidade de carbono dos produtos.
Para especialistas, o futuro do etanol de milho brasileiro dependerá da capacidade do setor de combinar competitividade econômica com inovação tecnológica.
A indústria deixa de ser apenas uma produtora de combustível renovável e passa a ocupar um papel estratégico como fornecedora de soluções para a transição energética mundial.
A expansão das biorrefinarias representa uma mudança histórica para o mercado de milho no Brasil.
Ao criar uma nova demanda interna, gerar coprodutos para a pecuária e abrir mercados internacionais ligados à economia de baixo carbono, o etanol de milho transforma o cereal em uma peça-chave da estratégia energética e ambiental do país.
O avanço do setor reforça a posição brasileira como um dos principais protagonistas globais na produção de alimentos e combustíveis renováveis.
Fonte: Portal do Agronegócio