Biosseguridade deixa de ser protocolo e passa a ser ativo econômico da suinocultura

 A biosseguridade costuma aparecer na rotina da suinocultura associada a protocolos, controles de acesso, limpeza, desinfecção e procedimentos sanitários. Para Valdomiro Ferreira Junior, presidente da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), porém, a dimensão do tema é muito maior. A sanidade deve ser entendida como parte da gestão econômica da propriedade e como um dos pilares que sustentam a competitividade da cadeia. “Biosseguridade não é burocracia, é proteção econômica”, resume o dirigente. A lógica parte de um ativo que raramente aparece de forma explícita no balanço das propriedades: a credibilidade sanitária. Quando as barreiras funcionam, o sistema segue normalmente. Os animais mantêm desempenho, o transporte ocorre, a indústria recebe a produção, os mercados são abastecidos e o consumidor mantém a confiança no produto.

Quando uma barreira falha, entretanto, o impacto pode percorrer toda a cadeia. O problema pode começar no rebanho, mas rapidamente alcançar o caixa da granja, a movimentação de animais, a programação de abates, as relações comerciais e a imagem do setor. “Por isso, a biosseguridade não deve ser tratada como uma pasta de protocolos preparada para a fiscalização”, afirma Ferreira Junior.

Status sanitário é também ativo econômico

A dimensão econômica da suinocultura brasileira ajuda a explicar por que a sanidade precisa ser encarada de forma estratégica.

Segundo dados do Relatório Anual 2026 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil produziu 5,592 milhões de toneladas de carne suína em 2025. Desse total, 1,510 milhão de toneladas foram destinadas às exportações, que alcançaram 94 países e geraram receita cambial de US$ 3,6 bilhões. O Valor Bruto da Produção da cadeia chegou a R$ 63,1 bilhões.

Para o presidente da APCS, esses números não significam que sanidade deva ser reduzida à questão das exportações. O mercado doméstico continua sendo o principal destino da produção brasileira, e uma eventual interrupção sanitária também teria efeitos sobre empregos, fornecedores, municípios, indústria, varejo e abastecimento.

O ponto central é que, à medida que a produção ganha escala e se conecta a dezenas de mercados, o status sanitário passa a integrar a própria infraestrutura econômica do setor.

Um mercado não compra somente volume e preço. Compra também a confiança de que existe vigilância, rastreabilidade, capacidade de resposta e certificação por trás do produto.

Essa confiança, segundo Ferreira Junior, é construída ao longo de anos, mas pode ser comprometida rapidamente diante de uma falha sanitária ou de uma resposta inadequada.

PSA mostra dimensão do risco

A Peste Suína Africana (PSA) é um exemplo da dimensão que um evento sanitário pode assumir. O Brasil permanece livre da doença, que não oferece risco à saúde humana, mas pode provocar perdas produtivas severas em rebanhos de suínos domésticos e silvestres, além de desencadear medidas de controle e restrições comerciais.

Para Ferreira Junior, é importante separar prevenção de alarmismo. “Prevenção séria não depende de confundir o consumidor nem de produzir medo”, destaca.

Ao mesmo tempo, ignorar o risco seria imprudente. A estratégia global para o controle da PSA publicada em 2026 pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) registra mais de 72 mil focos presentes ou suspeitos da doença em suínos domésticos e silvestres, distribuídos por 74 países ou territórios entre 2020 e 2025.

O cenário reforça a necessidade de manter as barreiras sanitárias ativas mesmo quando não há ocorrência da doença no território nacional.

Três tempos de proteção

Na avaliação de Ferreira Junior, a biosseguridade precisa ser compreendida em três etapas: prevenir, conter e comprovar e responder.

A primeira delas é a prevenção. O objetivo é reduzir a possibilidade de entrada de agentes infecciosos na propriedade, controlando as principais vias de risco relacionadas a animais, pessoas, veículos, equipamentos, alimentos, água, materiais e contato com suídeos asselvajados.

A segunda etapa é a contenção. Mesmo com protocolos bem estruturados, nenhuma barreira é absolutamente infalível. Por isso, fluxos, separações, limpeza, registros e condutas precisam estar organizados para reduzir a circulação de um agente dentro da granja caso ocorra uma falha.

A terceira é a capacidade de comprovar e responder. Registros adequados permitem identificar desvios, reconstruir movimentações, buscar avaliação técnica e acionar rapidamente o Serviço Veterinário Oficial diante de uma suspeita de doença de notificação obrigatória.

Essa visão modifica a maneira de avaliar o retorno de um protocolo sanitário. Uma barreira não deve ser considerada apenas pelo que consegue impedir. Ela também tem valor pelo que ajuda a limitar e pela capacidade de fornecer informações quando a gestão da propriedade ou as autoridades precisam entender o que ocorreu.

O custo da falha vai além do animal

Uma ocorrência sanitária não representa apenas o custo de um animal doente ou morto.

Dentro da granja, os impactos podem aparecer na forma de mortalidade, piora do desempenho, aumento de descartes, necessidade de limpeza e desinfecção, interrupção de lotes, restrições de movimentação e pressão sobre o fluxo de caixa.

Na cadeia, os efeitos podem alcançar transportadores, programação de abates, fornecimento de animais, compra de insumos, contratos e capacidade de atendimento dos pedidos.

No mercado, uma ocorrência pode exigir garantias adicionais, auditorias, medidas de regionalização, renegociação de certificados e esforços diplomáticos para preservar destinos comerciais.

Existe ainda uma dimensão reputacional.

Uma comunicação tardia ou pouco clara pode gerar interpretações equivocadas e misturar conceitos de saúde animal e segurança dos alimentos, inclusive em situações nas quais a enfermidade não representa risco à população.

Por isso, o investimento em biosseguridade não deve ser comparado simplesmente com “zero investimento”. A comparação correta, segundo Ferreira Junior, é com a exposição que esse investimento ajuda a reduzir.

Entram nessa conta o valor do rebanho, os compromissos de entrega, os custos fixos diários, o tempo necessário para recuperação, o capital exigido para atravessar uma interrupção e a quantidade de mercados que dependem da confiança no sistema sanitário. “Nem todo risco pode ser eliminado. Mas riscos diferentes não merecem o mesmo orçamento, a mesma urgência nem o mesmo controle”, avalia.

Para a gestão da propriedade, a prioridade deve estar nos riscos que combinam maior possibilidade de entrada, maior consequência econômica e menor capacidade de detecção precoce.

Biosseguridade pode ser medida

Outro ponto destacado pelo presidente da APCS é que biosseguridade não precisa permanecer no campo das percepções subjetivas. A pesquisa brasileira já demonstra que é possível medir o grau de adequação das propriedades e utilizar os resultados para definir prioridades.

Um estudo publicado na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira avaliou 100 granjas comerciais de suínos em Santa Catarina por meio de 76 perguntas e de um índice de adequação às condições mínimas de biosseguridade externa.

Na amostra analisada, 33% das propriedades apresentaram baixo índice, abaixo de 40%, enquanto 67% foram classificadas nos níveis médio ou alto. O trabalho também estimou os investimentos necessários para alcançar práticas consideradas ideais.

Os números, ressalta Ferreira Junior, não devem ser transportados diretamente para São Paulo nem utilizados para representar toda a suinocultura brasileira, já que a pesquisa possui contexto, metodologia e amostra próprios. O principal aprendizado está na possibilidade de transformar a biosseguridade em uma ferramenta de gestão.

Ao estabelecer critérios objetivos, a propriedade consegue diferenciar situações que, na prática, podem parecer semelhantes: um controle inexistente; um controle existente, mas aplicado de maneira parcial; e um controle incorporado à rotina e sustentado por evidências.

Essa diferenciação permite estabelecer prioridades, estimar custos, determinar prazos e acompanhar a evolução dos procedimentos.

Para o produtor independente, a estratégia ganha ainda mais importância porque os recursos são limitados e precisam ser direcionados para os pontos capazes de comprometer o rebanho e a continuidade da operação.

Indicadores ajudam a antecipar problemas

Outro aspecto importante é não limitar a avaliação sanitária à ocorrência ou não de doenças. “Ausência de foco é o resultado mais desejado, mas não é um indicador suficiente de gestão”, explica Ferreira Junior.

Uma granja pode permanecer anos sem enfrentar uma ocorrência grave e, mesmo assim, acumular vulnerabilidades. O fato de um evento ainda não ter acontecido não significa que todas as barreiras estejam funcionando adequadamente. Por isso, a gestão pode acompanhar diferentes dimensões da biosseguridade.

Entre elas estão a exposição econômica — considerando valor do rebanho, compromissos de entrega, custos fixos e dias de operação em risco —; a aderência aos controles definidos com a assistência veterinária; os desvios e sua recorrência; a capacidade de detecção e o tempo de resposta; e a rastreabilidade de animais, pessoas, veículos e materiais.

Esses indicadores não substituem o diagnóstico, a assistência do médico-veterinário ou os programas oficiais de defesa sanitária. Servem, principalmente, para permitir que a administração da propriedade identifique se o sistema está se fortalecendo antes que uma doença transforme uma vulnerabilidade em prejuízo.

A proteção depende de toda a cadeia

A biosseguridade também não termina nos limites físicos da granja.

A responsabilidade é compartilhada entre produtores, transportadores, fornecedores, frigoríficos, demais operadores da cadeia e o poder público.

À propriedade cabe cuidar de acessos, fluxos, animais, equipes e protocolos de resposta. Transportadores e fornecedores precisam preservar suas próprias barreiras. Os frigoríficos também desempenham papel importante na manutenção dos controles. Ao Serviço Veterinário Oficial competem vigilância, investigação, certificação e coordenação de respostas diante de emergências sanitárias.

No âmbito nacional, o controle de fronteiras, bagagens e produtos de risco também integra esse sistema.

O Plano Integrado de Vigilância de Doenças dos Suínos, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), reúne ações de vigilância e detecção para doenças como Peste Suína Clássica, Peste Suína Africana e Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos.

Em São Paulo, o Programa Estadual de Sanidade Suídea também articula ações de vigilância, controle de trânsito, inspeção e acompanhamento de suínos comerciais e asselvajados. A lógica, portanto, é de camadas.

Uma fronteira forte não substitui uma granja protegida. Uma granja protegida não substitui a vigilância oficial. Um protocolo interno bem elaborado não compensa falhas recorrentes durante o transporte. E nenhuma dessas camadas deve depender da expectativa de que as demais nunca falharão.

Sanidade precisa entrar na gestão da granja

Para Ferreira Junior, o produtor não precisa transformar a propriedade em um laboratório nem substituir a orientação do médico-veterinário ou do Serviço Veterinário Oficial. Precisa, porém, aplicar à sanidade a mesma disciplina utilizada em áreas como custos, conversão alimentar, compras e comercialização.

Isso significa conhecer os principais pontos de exposição, estabelecer responsabilidades, treinar as equipes, registrar procedimentos críticos, corrigir desvios e saber exatamente a quem recorrer diante de um sinal fora do padrão.

Também significa colocar a continuidade econômica dentro da discussão sanitária.

Quanto custa manter determinada barreira? Quanto da operação ela protege? Qual é o tempo necessário para responder a uma suspeita? Quanto capital de giro seria necessário para atravessar uma eventual interrupção?

São perguntas que aproximam a sanidade da realidade financeira da propriedade.

Na avaliação do presidente da APCS, essa abordagem é particularmente relevante para o produtor independente, que precisa de informação e organização para preservar sua autonomia.

A decisão começa dentro da granja, mas a proteção depende de uma rede que conecta produtores, assistência técnica, entidades representativas, empresas e poder público.

Na porteira, o protocolo protege o rebanho.

Na planilha, protege o caixa e a capacidade de continuar investindo.

Na cadeia, protege o fluxo da produção.

No mercado, protege contratos e acesso.

E, na relação com o consumidor, protege a confiança.

É por isso que, na visão de Valdomiro Ferreira Junior, biosseguridade não deve ser tratada como uma exigência colocada ao lado do negócio.

Ela faz parte do próprio negócio.

Fonte: feed & food

Data da Notícia: 11/09/2026
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